No Natal de minha infância,
atendia mendigos que batiam palmas
diante do portão.
Não existia campainha.
Eles gritavam:
- Ó de casa.
Conheciam a vizinhança de cor.
Chegavam a tirar o chapéu
ou a boina na hora de falar.
Chamavam qualquer pessoa
de senhor ou senhora,
independente da idade.
Podia ser até criança, tanto fazia.
Com respeito (ou seria ternura?), perguntavam se havia
algum pão velho para dar.
Eram elegantes e educados,
sem o golpe das feridas
e das histórias forjadas,
sem mentiras
e receitas de hospital.
Não cobravam pão novo e quentinho,
nada que pudesse
ser retirado da mesa.
Queriam algo
que fosse sobrar na despensa. Lembro que ofereci
um pão recente
e o mendigo devolveu no ato:
- Não, quero um velho,
este sua mãe pode precisar.
Fico pensando que
nunca mais recebi
pedido semelhante.
Hoje o mendigo não pergunta, exige.
E xinga se não recebe a solicitação.
E amaldiçoa independente da reação.
Perdemos a delicadeza do antigo,
do trato, do pão velho.
Não aproveitamos mais
os sentimentos
que já foram usados,
os amores
que já foram consumidos,
as amizades
que esqueceram de telefonar.
Não aceitamos a velhice
sequer de um dia.
Não aceitamos a velhice
sequer de uma hora.
Não aceitamos a velhice
sequer de uma palavra.
Nosso armário,
nosso guarda-roupa,
o dicionário,
a gaveta,
o bidê são asilos.
As lembranças são os parentes
que não visitamos.
Empilhamos frases e nomes
em um canto
jurando voltar
e não voltamos.
Guardamos livros e vidas
em um canto
jurando voltar
e não voltamos.
Porque acreditamos infelizmente
que não presta
o que aconteceu ontem.
Nossa indigência
é emocional e pode se infiltrar
em qualquer contra-cheque
ou classe social.
É rancorosa e agressiva.
Uma indigência
que não tenciona compreender,
que está cobrando antes
de ouvir a resposta.
Uma indigência ofensiva,
desaforada.
Uma indigência arrogante
que não iguala,
mas divide.
Em vez de ir atrás,
ficamos esperando.
Em vez de agradecer,
reclamamos
o que não recebemos.
Em vez de ouvir o outro lado,
apressamos em falar.
Em vez de respeitar,
cobramos.
Nem o mendigo,
nem ninguém
deseja
o que não é do dia.
Não se recolhe os farelos
como unhas de criança.
Não se lê mais cartas
nas figuras da toalha de mesa.
Ou se procura
o nome de um amor
no macarrão.
Ou se adivinha o passado
na borra do café.
Sinto falta da minha avó em casa
para abençoar o pão velho
em uma sopa.
Por enquanto
somos os pássaros.
Mas haverá o momento
em que seremos
as migalhas.
fabricio carpinejar
domingo, 1 de março de 2009
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