quinta-feira, 5 de março de 2009

Amo-te

















"Algum dia eu haveria de entrar
na normalidade
dos que te amam.
Amo-te.

E dói escrevê-lo
(que é pior, meu amor, do que dizê-lo).
Amo-te,
absoluta, impossível e fatalmente.

E ouço, adolescente, uma música adolescente,
para me lembrar de ti,
porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te.

E ouço música porque ouvimos música quando amamos,
e tudo, no amor, é música,
acústica da alma que se quer ser devorada, e,
neste caso, dor
(tão deliciosamente insuportável)
de amar sem sequência
nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objeto
que desgraçadamente amamos.


Isto é uma carta de amor,
e é possivelmente ridícula
(prova maior de que é, realmente uma carta de amor),
ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive
a coragem de as enviar. Não percebes porque é que não te falo?

Ainda não percebes que,
na personagem que de mim eu enceno,
não cabe a ameaça de uma derrota,
a antecipação do desencanto,
a sombra de um vexame?


Não te falo,
para não saber que o que eu te digo
é apenas a forma contida de
te dizer outra coisa,
mas que essa coisa não é do teu mundo,
nem do mundo que eu construí,
nem do precário mundo que a
nossa fragilíssima ternura mútua arquitetou.


E tudo isto é literário,
eu sei,
mas "que queres" - a literatura é o melhor de mim
e é o melhor de mim que vive
dentro da minha cabeça
quando estou contigo. .... E é verdade,
é cada vez mais verdade,
que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida,
é em ti que penso.


E tenho medo, como um animal que instintivamente
foge do que sabe não poder atingir. Eu penso em ti,
ainda mais do que te digo,
e tu estás em tudo,
mesmo quando não te penso,
tu és a grande razão,
o horizonte sem nome que constantemente se
desenha na minha
imaginação de mim."

[António Mega Ferreira, in "Amor"]

Nenhum comentário:

Postar um comentário