terça-feira, 28 de abril de 2009

Ser Moça Bonita

Ser Moça Bonita
não é viver em um píncaro azulado:
é muito mais!

Ser Moça Bonita
é sorrir bastante dos homens
e rir interminavelmente das mulheres,
rir como se o ridículo,
visível ou invisível,
provocasse uma tosse
de riso irresistível.Ser Moça Bonita
é não usar pintura alguma,
às vezes,
e ficar de cara lambida,
os cabelos desarrumados
como se ventasse forte,
o corpo todo apagado
dentro de um vestido
tão de propósito sem graça,
mas lançando fogo pelos olhos.

Ser Moça Bonita
é lançar fogo pelos olhos.É viver a tarde inteira,
em uma atitude esquemática,
a contemplar o teto,
só para poder contar depois
que ficou a tarde inteira
olhando para cima,
sem pensar em nada.

É passar um dia todo
descalça no apartamento da amiga
comendo comida de lata
e cortar o dedo.

Ser Moça Bonita
é ainda possuir vitrola própria
e perambular pelas ruas do bairro
com um ar sonso-vagaroso,
abraçada a uma porção
de elepês coloridos.


É dizer a palavra feia
precisamente no instante
em que essa palavra
se faz imprescindível
e tão inteligente e natural.

É também falar legal e bárbaro
com um timbre tão por cima
das vãs agitações humanas,
uma inflexão tão certa
de que tudo neste mundo
passa depressa
e não tem a menor importância.Ser Moça Bonita
é poder usar óculos
como se fosse enfeite,
como um adjetivo
para o rosto
e para o espírito.

É esvaziar o sentido das coisas
que transbordam de sentido,
mas é também dar sentido de repente
ao vácuo absoluto.

É aguardar com paciência e frieza
o momento exato
de vingar-se da má amiga.

É ter a bolsa cheia
de pedacinhos de papel,
recados que os anacolutos
tornam misteriosos,
anotações criptográficas sobre
o tributo da natureza feminina,
uma cédula de dois cruzeiros
com uma sentença hermética
escrita a batom,
toda uma biografia esparsa
que pode ser atirada
de súbito ao vento que passa.

Ser Moça Bonita
é a inclinação do momento.É telefonar muito,
estendida no chão.

É querer ser rapaz
de vez em quando
só para vaguear sozinha
de madrugada
pelas ruas da cidade.

Achar muito bonito
um homem muito feio;
achar tão simpática
uma senhora tão antipática.

É fumar quase um maço de cigarros
na sacada do apartamento,
pensando coisas brancas,
pretas, vermelhas, amarelas.Ser Moça Bonita
é comparar o amigo do pai
a um pincel de barba,
e a gente vai ver está certo:
- o amigo do pai
parece um pincel de barba.

É sentir uma vontade doida
de tomar banho de mar de noite
e sem roupa, completamente.

É ficar eufórica
à vista de uma cascata.
Falar inglês sem saber
verbos irregulares.

É ter comprado na feira
um vestidinho gozado
e bacanérrimo.É ainda ser Moça Bonita
chegar em casa
ensopada de chuva,
úmida camélia,
e dizer para a mãe
que veio andando devagar
para molhar-se mais.

É ter saído um dia
com uma rosa vermelha na mão,
e todo mundo pensou com piedade
que ela era uma louca varrida.

É ir sempre ao cinema
mas com um jeito de quem
não espera mais nada desta vida.

É ter uma vez bebido
dois gins,
quatro uísques,
cinco taças de champanha
e uma de cinzano
sem sentir nada,
mas ter outra vez bebido
só um cálice de vinho do Porto
e ter dado um vexame
modelo grande.

É o dom de falar
sobre futebol e política
como se o presente
fosse passado,
e vice-versa.Ser Moça Bonita
é atravessar de ponta a ponta
o salão da festa
com uma indiferença mortal
pelas mulheres
presentes e ausentes.

Ter estudado ballet e desistido,
apesar de tantos telefonemas
de Madame Saint-Quentin.

Ter trazido para casa
um gatinho magro
que miava de fome
e ter aberto uma lata de salmão
para o coitado.

Mas o bichinho comeu o salmão
e morreu.


É ficar pasmada
no escuro da varanda
sem contar para ninguém
a miserável traição.

Amanhecer chorando,
anoitecer dançando.

É manter o ritmo
na melodia dissonante.

Usar o mais caro perfume
de blusa grossa e blue-jeans.

Ter horror de gente morta,
ladrão dentro de casa,
fantasmas e baratas.

Ter compaixão
de um só mendigo
entre todos os outros
mendigos da Terra.

Permanecer apaixonada
a eternidade de um mês
por um violinista estrangeiro
de quinta ordem.

Eventualmente,
ser Moça Bonita
é como se não fosse,
sentindo-se quase a cair do galho,
de tão amadurecida em todo o seu ser.

É fazer marcação cerrada
sobre a presunção
incomensurável dos homens.

Tomar uma pose,
ora de soneto moderno,
ora de minueto,
sem que se dissipe
a unidade essencial.

É policiar parentes, amigos,
mestres e mestras
com um ar songamonga
de quem
nada vê,
nada ouve,
nada fala.
Ser Moça Bonita é adorar.
Adorar o impossível.

Ser Moça Bonita é detestar.
Detestar o possível.

É acordar ao meio-dia
com uma cara horrível,
comer somente e lentamente
uma fruta meio verde,
e ficar de pijama telefonando
até a hora do jantar,
e não jantar,
e ir devorar
um sanduíche americano
na esquina,
tão estranha
é a vida sobre a Terra.



Ser Brotinho Paulo Mendes Campos Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15

AC

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Papai, o que é Páscoa???


-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta, vem cá!

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?

-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais?

-Sacrilégio!!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo?

-Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

-Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?

-Era... era melhor,sim... ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sabado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?

-É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O Judas traiu Jesus no Sábado?

-Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

-Ui...-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

(Luiz Fernando Veríssimo)