terça-feira, 17 de novembro de 2009

Constelação & Constatação

Quando achamos que ganhamos, perdemos.

Acho que já li ou escutei essa frase.

Estava aqui, parado, pensando em tantos acontecimentos na minha vida...

Pessoas que se foram, outras que chegaram, amores que perduram, outros que duraram tão pouco...

E quando esta última lembrança chegou em minha mente "amores que duraram tão pouco", percebi o quanto procuro cuidar do que ganho.

Não estou falando de coisas materiais, falo de sentimentos.

Muitas pessoas que conheço estão constantemente perdendo.

Não me excluo desta lista, mas isto me faz pensar no tipo de sentimentos que habitam os corações dos seres humanos.

Quantos, realmente, consideram o que recebem de outro ser humano?

A construção de uma relação é algo que se faz dia-a-dia, através de atenção, carinho, companheirismo.

Não é necessário concordar com o outro o tempo todo, mesmo por que, isso seria impossível, mas levar em consideração as coisas que nos são ditas, mostrar os erros e acertos, oferecer elogios, mas saber distinguir os equivocos.

É exatamente neste ponto que percebo que as pessoas não gostam de serem criticadas.

Outras, infelizmente, acreditam que não podem viver na sombra de alguém que julgam ser mais inteligente, mais bonito, mais, mais...

Existe uma total falta de humildade nesse tipo de pessoa.

Elas não entendem que podem aprender muito ficando próximas a quem oferece um conhecimento maior.

Na verdade elas gostam de ser estrelas.

Eu as vejo como estrelas, sim.

Estrelas cadentes.

Elas apenas passam.

Passam e caem, em um local desconhecido, muito longe de nós ou muito próximas, muitas vezes ferindo nosso sentimento mais sincero e delas não se aproveita muita coisa, pois viraram apenas pó em nosso firmamento.

São belas em sua passagem, mas totalmente efêmeras.

A única coisa que me ensinam é que eu ainda tenho muito a aprender sobre o ser humano e suas contrariedades.

Enfim, tantas pessoas passam por nós e, realmente, acabam apenas passando e não deixam nada, nem lembranças.

Aposto alto na construção de um amor de verdade e, quando menos espero ele se torna tão sólido que, acabo batendo com a cara em um imenso paredão.

Para mim, ele era sólido, para o outro não.

Mesmo assim, decidi não desistir de investir em pessoas.

Sempre podemos encontrar alguém que realmente faça a diferença.

E hoje, uma terça-feira é um dia especial para você começar a fazer a diferença.

Para mim, para você, ou para quem for que seja.


Lembre-se : As pessoas podem esquecer o que você falou, mas jamais esquecerão como você as fez se sentir....


A.C

domingo, 8 de novembro de 2009

Atualiza seu vocabulário!!!!

ATUALIZE SEU VOCABULÁRIO

Algumas (PEQUENAS) mudanças... dos anos 70 para os dias de hoje:

Antes era: creme rinse
Agora é: Condicionador

Antes era: obrigado
Agora é: valeu

Antes era: é complicado
Agora é: é foda

Antes era: collant
Agora é : body

Antes era: rouge
Agora é: blush

Antes era: ancião e corôa
Agora é: Véi

Antes era: bailinho e discoteca
Agora é: balada

Antes era: japona
Agora é: jaqueta

Antes era: nos bastidores
Agora é: making off

Antes era: cafona
Agora é: brega

Antes era : programa de entrevistas
Agora é: talk-show

Antes era: reclame
Agora é: propaganda

Antes era: calça cocota
Agora é: calça cintura baixa

Antes era: flertar, paquerar
Agora é: dar mole

Antes era: oi, olá, como vai?
Agora é: e aê?

Antes era: cópia, imitação
Agora é: genérico

Antes era: curtir, zoar
Agora é: causar

Ainda tem mais...

Antes era: mamãe posso ir?
Agora é: véiaaaa, fui!!!

Antes era: legal, bacana
Agora é: manero, irado

Antes era: mulher de vida fácil
Agora é: garota de programa

Antes era: legal o negócio
Agora é: xapado o bagúio

Antes era: pasta de dente
Agora é: creme dental

Antes era: cansaço
Agora é: estresse

Antes era: desculpe
Agora é: foi mal

Antes era: oi, tudo bem?
Agora é: e aê, belê?

Antes era: ficou chateada
Agora é: ficou bolada

Antes era: médico de senhoras
Agora é: ginéco

Antes era: super legal
Agora é: irado

Antes era: primário e ginásio
Agora é: ensino fundamental

Antes era: preste atenção
Agora é: se liga na bagaça

Antes era: por favor
Agora é: quebra essa

Antes era: recreio
Agora é: intervalo

Antes era: radinho de pilhas
Agora é: ipod

Antes era: manequim
Agora é: modelo e atriz

Antes era: retrato
Agora é:foto

Antes era: jardineira
Agora é: macacão

Antes era: mentira
Agora é: kaô

Antes era: saquei
Agora é: tô ligado

Antes era: entendeu?
Agora é:copiou?

Antes era: gafe
Agora é: mico

Antes era: fofoca
Agora é: babado

Antes era: ha ha ha
Agora é: uhauhauhauha

Antes era : fotocópia
Agora é : xerox

Antes era: brilho labial
Agora é: gloss

Antes era : bola ao cesto
Agora é: basquete

Antes era: folhinha
Agora é: calendário

Antes era: empregada doméstica
Agora é: secretária do lar

Antes era: faxineira
Agora é: diarista

Antes era: vou verificar
Agora é: vou estar verificando (ESTA É RUIM....)

Antes era: madureza
Agora é: supletivo

Antes era: vidro fumê
Agora é: insulfilm

Antes era: posso te ligar?
Agora é: posso te add?

Antes era: tingir uma roupa
Agora é: costumizar

Antes era: dar no pé
Agora é: vazar

Antes era: embrulho
Agora é: pacote

Antes era: lycra
Agora é: stretch

Antes era: tristeza
Agora é: deprê

Antes era: beque
Agora é: zagueiro

Antes era: rádio patrulha
Agora é : viatura

Antes era: atlético
Agora é: sarado

Antes era: peituda
Agora é: siliconada

Antes era: professor de ginástica
Agora é: personal trainning

Antes era : lousa
Agora é : quadro negro


Antes era: babosa
Agora é: aloe vera

Antes era : lepra
Agora é : hanseníase

Antes era - Ave Maria!!!
Agora é - Afffff!!

Antes era: caramba
Agora é: caraca

Antes era: namoro
Agora é: pegação

Antes era: laquê
Agora é: spray

Antes era: de montão
Agora é: pracarai !!!

Antes: derrame
Agora é: AVC

Antes era : chapa dos pulmões
Agora é : raio-x de tórax

Antes era: sua bênção papai
Agora é: "Qualé" coroa?

Antes era: voce tem certeza?
Agora é: fala sério aê!

Antes era: banha
Agora é : gordura localizada

Antes era: casa de fundos
Agora é: edícula

Antes era: boteco no fim do expediente
Agora é: happy hour

Antes era: costureira
Agora é: estilista!

Antes era: negro
Agora é: afro-descendente

Antes era: professora
Agora é: tia, prô

Antes era: aquele senhor
Agora é: aquele tiozinho

Antes era: Bela bunda!
Agora é: Que popozão!

Antes era: Ainda vou dar pra este garoto!
Agora é : Ainda como este cara!!


Antes era: Amorrrrrrr!
Agora é: Nenhhêêêêê!

Antes era: Desculpe, mas esta questão que você me submeteu é imposível de cumprir!
Agora é: Nem fudendo!!!!!!

Antes era: Olha o barulho!
Agora é: Ó o auê aí ô!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Carregar água na peneira...

“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele
para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
o mesmo que criar peixe no bolso.

O menino era ligado em despropósitos
quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e há até os infinitos.

Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Descobriu que escrever era o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo.
Ao mesmo tempo.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher vazio com suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.”



( Manoel de Barros)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Poema para um dia de Finados

Á cabeceira da eternidade
uma flor na campa desse Adeus
que não sei onde começa
ou se algum dia acaba.
Apenas um sonho de água
celebrado em taça de vento
com vinho de mel e de mágoa.
Te deixo meu amor a minha palma,
um pouco de terra, de sal e de saudade
e sobre a campa derradeira,
fica contigo também a minha alma.

Luiza Caetano

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O que eu quero num homem

Eu quero um homem que... - Lista Original:

1. Seja lindo,
2. Encantador,
3. Financeiramente estável,
4. Um bom ouvinte,
5. Divertido,
6. Em boa forma física,
7. Se vista bem,
8. Aprecie as coisas mais finas,
9. Faça muitas surpresas agradáveis,
10. Seja um amante criativo e romântico.
*________________________________________*
Eu quero um homem que... - Lista Revisada (aos 32 anos)
1. Seja bonitinho,
2. Abra a porta do carro e afaste a cadeira pra eu me sentar,
3. Tenha dinheiro o suficiente para um jantar agradável,
4. Ouça mais do que fale,
5. Ria das minhas piadas,
6. Carregue as sacolas do mercado com facilidade,
7. Tenha no mínimo uma gravata,
8. Aprecie comida caseira,
9. Lembre de aniversários e datas especiais,
10. Procure romance pelo menos uma vez porsemana.
*_______________________________________*
Eu quero um homem que... - Lista Revisada (aos 52 anos)
1. Não seja muito feio,
2. Espere eu me sentar no carro antes de começar a acelerar,
3. Tenha um emprego fixo - goste de jantar fora ocasionalmente,
4. Balance a cabeça enquanto eu falo,
5. Geralmente se lembre das frases mais engraçadas de algumas piadas,
6. Esteja em boa forma pelo menos para mudar a mobília de lugar,
7. Use camisetas que cubram sua barriga,
8. Não compre cidra achando que é champagne,
9. Se lembre de abaixar a tampa da privada,
10. Faça a barba quase todos os finais de semana.
*_________________________________________*
Eu quero um homem que... - Lista Revisada (aos 62 anos)
1. Corte os pêlos do nariz e das orelhas,
2. Não se coce nem cuspa em público,
3. Não pegue dinheiro emprestado o tempo todo,
4. Não balance a cabeça até dormir enquanto eu estou reclamando,
5. Não conte a mesma piada o tempo todo,
6. Esteja em boa forma para conseguir levantar da poltrona nos finais de semana,
7. Normalmente use uma meia combinando com a outra e cuecas limpas,
8. Aprecie um bom jantar a frente da TV,
9. Lembre do meu nome de vez em quando,
10. Faça a barba em alguns finais de semana.
*__________________________________________*
Eu quero um homem que... - Lista revisada (aos 72 anos)
1. Não assuste as crianças pequenas,
2. Lembre onde fica o banheiro,
3. Não peça muito dinheiro,
4. Ronque bem baixinho quando dorme,
5. Lembre o porquê de estar rindo,6. Esteja em boa forma para ficar de pé sozinho,
7. Normalmente use um pouco de roupa,
8. Goste de comida macia,
9. Lembre onde deixou seus dentes,
10. Saiba quando é fim de semana.
*__________________________________________*
Eu quero um homem que... - Lista Revisada (aos 82 anos)
Quero um homem que Respire...
*_______________________*

domingo, 18 de outubro de 2009

Antiguidades


Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção.
Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava.
Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntosde licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:"
- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.
Cora Coralina

Ter ou não ter namorado, eis a questão

Atribuído a
Carlos Drummond de Andrade,
mas é de Artur da Távola
Quem não tem namorado
é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo.

Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro.

Necessita de adivinhação,
de pele,
saliva,
lágrima,
nuvem,
quindim,
brisa ou filosofia.
Paquera,
gabira,
flerte,
caso,
transa,
envolvimento,
até paixão é fácil.

Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito,
mas ser aquele a quem se quer proteger
e quando se chega ao lado dele
a gente treme,
sua frio,
e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele
não precisa ser parruda ou bandoleira:
basta um olhar de compreensão
ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado
não é quem não tem amor:
é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes,
dois paqueras,
um envolvimento,
dois amantes
e um esposo;
mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado
quem não sabe o gosto da chuva,
cinema,
sessão das duas,
medo do pai,
sanduíche da padaria
ou drible no trabalho.

Não tem namorado
quem transa sem carinho,
quem se acaricia
sem vontade de virar lagartixa
e quem ama sem alegria.

Não tem namorado
quem faz pactos de amor
apenas com a infelicidade.
Namorar
é fazer pactos com a felicidade,
ainda que rápida,
escondida,
fugidia
ou impossível de curar.

Não tem namorado
quem não sabe dar o valor
de mãos dadas,
de carinho escondido
na hora que passa o filme,
da flor catada no muro
e entregue de repente,
de poesia de Fernando Pessoa,
Vinícius de Moraes
ou Chico Buarque,
lida bem devagar,
de gargalhada quando fala junto
ou descobre a meia rasgada,
de ânsia enorme
de viajar junto para a Escócia,
ou mesmo de metrô,
bonde,
nuvem,
cavalo,
tapete mágico
ou foguete interplanetário

Não tem namorado
quem não gosta de dormir,
fazer sesta abraçado,
fazer compra junto.

Não tem namorado
quem não gosta de falar do próprio amor
nem de ficar horas e horas
olhando o mistério do outro
dentro dos olhos dele;
abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado
quem não redescobre a criança
e a do amado
e vai com ela a parques,
fliperamas,
beira d'água,
show do Milton Nascimento,
bosques enluarados,
ruas de sonhos
ou musical da Metro.

Não tem namorado
quem não tem música secreta com ele,
quem não dedica livros,
quem não recorta artigos,
quem não se chateia com o fato
de seu bem ser paquerado.

Não tem namorado
quem ama sem gostar;
quem gosta sem curtir
quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado
quem nunca sentiu o gosto
de ser lembrado de repente no fim de semana,
na madrugada
ou meio-dia do dia de sol
em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado
quem ama sem se dedicar,
quem namora sem brincar,
quem vive cheio de obrigações;
quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado
quem confunde solidão
com ficar sozinho e em paz.

Não tem namorado
quem não fala sozinho,
não ri de si mesmo
e quem tem medo de ser afetivo

Se você não tem namorado
porque não descobriu que o amor é alegre
e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos.
Ponha a saia mais leve,
aquela de chita,
e passeie de mãos dadas com o ar.

Enfeite-se com margaridas e ternuras
e escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado,
saia do quintal de si mesma
e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui
e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenção de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto
de sons de flauta
e do céu descesse
uma névoa de borboletas,
cada qual trazendo uma pérola falante
a dizer frases sutis
e palavras de galanteio...

Se você não tem namorado
é porque não enlouqueceu aquele pouquinho
necessário para fazer a vida parar e,
de repente,
parecer que faz sentido...


Artur da Távola
Título do livro: Amor a sim mesmo (Não digitei errado; o trocadilho está mesmo no título.) A edição é uma coletânea das crônicas de Távola.

Uma arte

A arte de perder
não tarda aprender;

tantas coisas parecem feitas
com o molde da perda
que o perdê-las
não traz desastre.

Perca algo a cada dia.
Aceita o susto
de perder chaves,
e a hora passada embalde.

A arte de perder
não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido
mil coisas mais:
lugares,
nomes,
onde pensaste
de férias ir.

Nenhuma perda
trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe.

A última,
ou a penúltima,
de minhas casas queridas
foi-se.

Não tarda aprender,
a arte de perder.

Perdi duas cidades,
eram deliciosas.

E,
pior,
alguns reinos que tive,
dois rios, um continente.

Sinto sua falta,
nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti
(a voz que ria, um ente amado),
mentir não posso.

É evidente:
a arte de perder muito
não tarda aprender,
embora a perda
- escreva tudo!
- lembre desastre.


Uma arte - Elisabeth Bishop
Por A/C

sábado, 17 de outubro de 2009

E agora, José?






E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade

Olhos Azuis


Dois olhos azuis,

olhando o horizonte….

com o pensamento longe,

muito longe daqui….

olhos de saudades,

de sonhos…

olhos de amores não esquecidos,

despercebidos…

dois olhos lindos,

de amizades conquistadas,

Olhos de criança,

perdidos no tempo,

a procura de algo..

Dois olhos longe de casa,

longe do colo,

longe da terra….

Olhos de menina,

de mulher…

olhos que todo homem quer….

Dois olhos brilhantes

de uma sonhadora,

bravinha…

Olhos azuis de uma mulher que vai vencer…

E que vai deixar saudades…

olhos de uma menina que quer sonhar…

arriscar…

e quem sabe…

tentar voar……

Voa criança,

voa atrás dos seus desejos…





Mazinho bh.



Primavera!!!!


Mientras el aire en su regazo lleve

Perfumes y armonías,

Mientras haya en el mundo primavera,

¡Habrá poesía!


(G.A Becquer)

Eu perdi o meu medo
o meu medo, o meu medo
da chuva...
Pois a chuva
voltando pra terra,
traz coisas do ar...

Raul Seixas

SELF PROMOTION

Às vezes sou :
folgada,
esquisita,
teimosa,
chata,
cheia de manias,
irresponsável,
nervosinha,
seletiva,
abusada,
mal-criada,
explosiva,
rude,
desaforada,
ignorante,
franca ao extremo,
insegura,
boba,
abobada,
bruta,
amadinha,
tonta,
muito esperta,
cafona,
afobada,
lerda,
precipitada,
indecisa,
manipuladora,
irritada,
grosseira,
delicada,
sarcástica,
encapetada,
gagá,
indiferente,
furiosa,
visceral,
estressada,
brega,
infantil,
despirocada,
palpiteira,
obstinada,
briguenta,
cabeça de vento,
moleca,
cabeça de bagre,
desmiolada,
desprezível,
atrevida,
espaçosa,
maliciosa,
ingrata,
orgulhosa....

Tirando isso, sou um docinho...

AC

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Poemas inconjuntos - 2



Poemas Inconjuntos - 2
Fernando Pessoa
(Interpretação livre de Antônio Abujamra)

Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia,
não há árvores,
há idéias apenas.

Há só cada um de nós como uma cave.

Há só uma janela fechada,
e todo mundo lá fora.

E um sonho do que se poderia ver
se a janela se abrisse,

que nunca é o que se vê
quando se abre a janela.



2008: 120 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA.










Dois vôos

Porque pode voar todo aquele que tem o pensamento livre...


Em tese


- Você sabe como funciona computador?


- Em tese, sei.


- Verdade?


- Não. Na verdade, não sei nem como funciona televisão.


- Eu não sei como funciona rádio.


- Já me explicaram.


Tem algo a ver com ondas sonoras que se propagam pelo ar.

As ondas estão aqui, a nossa volta.

O rádio apenas retransforma-as em som.


- Quer dizer, uma história altamente improvável.


- Eu não acreditei.


- Telefone eu já não entendo.


- Pois eu vou dizer uma coisa,

já que você levantou o assunto.


- Diga.


- Eu não tenho muita certeza de como funciona fechadura.


- Quer ouvir uma coisa?


- Diga.

- Eu não sei como funciona torneira.


- Pois então te prepara.


- o quê?


- Eu não entendo tesoura.


- Espera um pouquinho.

Tesoura eu sei.


- Verdade?


- Tesoura eu domino.

Pelo menos em tese.


Luis Ferando Veríssimo. O que dizem. In: Novas Comédias da Vida Pública - A versaõ dos Afogados. 2° edição. Pág. 38._____________________________

O mal


O mal,
lembra Peter Pan;
possui o privilégio horrível
e apavorante
da juventude eterna."
(Graham Greene)
Fui ser feliz e já volto!
=)

El amor

El amor,
como ciego que es,
impide a los amantes
ver las divertidas tonterias que cometen.

El amor de los jóvenes en verdad
no está en su corazón,
sino más bien en sus ojos.
El amor no mira con los ojos,
sino con el alma.
El amor no prospera en corazones
que se amedrentan de las sombras.
La prosperidad es el más seguro lazo de amor.

Miserable es el amor
que puede ser remedio.
¡Oh amor poderoso!
que a veces hace de una bestia un hombre,
y otras de un hombre una bestia.
Oír con los ojos es una de las agudezas del amor.
Se puede hacer mucho con el odio,
pero más aún con el amor.

WILLIAM SHAKESPEARE

Começando pelo amor...

Começando pelo amor...


O amor essencialmente é união,


e naturalmente a busca:


para ali pesa,


para ali caminha,


e só ali pára...






Tudo são palavras de Platão,

e de Santo Agostinho.

Pois se a natureza do amor é unir,

como pode ser efeito do amor o apartar?




Assim é,

quando o amornão é extremado e excessivo.

As causas excessivamente intensas

produzem efeitos contrários.

A dor faz gritar;
mas se é excessiva,
faz emudecer:

a luz faz ver;
mas se é excessiva,cega:

a alegria alenta e vivifica;
mas se é excessiva,mata.

Assim o amor:
naturalmente une;
mas se é excessivo,divide:

Fortis est ut mors dilectio:

o amor, diz Salomão,
é como a morte.

Como a morte, rei sábio?

Como a vida, dissera eu.

O amor é união de almas;

a morte é separação da alma:

pois se o efeito do amor é unir,

e o efeito da morte é separar,

como pode ser o amor
semelhante à morte?

O mesmo Salomão se explicou.
Não fala Salomão de qualquer amor,

senão do amor forte?

Fortis est ut mors dilectio:

e o amor forte,
o amor intenso,
o amor excessivo,
produz efeitos contrários.

É união,
e produz apartamentos.

Sabe-se o amor atar,
e sabe-se desatar

como Sansão:
afetuoso, deixa-se atar;
forte, rompe as ataduras.

O amor sempre é amoroso;

mas umas vezes
é amoroso e unitivo,

outras vezes
amoroso e forte.

Enquanto amoroso e unitivo,
ajunta os extremos mais distantes:

enquanto amoroso e forte,
divide os extremos mais unidos.


Começando pelo amor - ANTONIO VIEIRA. Sermão do Mandato. Brasília: Editora Universidade de Brasília: São Paulo):

AC










terça-feira, 6 de outubro de 2009

Adeus a Mercedes Sosa

Morre Mercedes Sosa...

leia:


Leia:http://www.clarin.com/diario/2009/10/04/um/m-02012095.htm




Años
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Passam os anos e como muda o que eu sinto
O que ontem era amor vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás tomar tua mão roubar-te um beijo
Sem forçar o momento fazia parte de uma verdade
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer (como ayer)
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Vamos viviendo viendo las horas
Que van pasando las viejas discusiones
Se van perdiendo entre las razones
A todo dices que si
a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de temor
Vamos vivendo vendo as horas
Que vão passando as velhas discussões
Vão se perdendo entre as razões
A tudo dizes que sim
a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Que eu...

Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO,mesmo sabendo que as rosas não falam...

Que eu não perca o OTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro que nos espera pode não ser tão alegre...

Que eu não perca a VONTADE DE VIVER, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa...

Que eu não perca a vontade de TER GRANDES AMIGOS, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas...

Que eu não perca a vontade de AJUDAR AS PESSOAS, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir, esta ajuda...

Que eu não perca o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia...

Que eu não perca a VONTADE DE AMAR, mesmo sabendo que apessoa que eu mais amo pode não sentir o mesmo sentimentopor mim...

Que eu não perca a LUZ E O BRILHO NO OLHAR, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão meus olhos...

Que eu não perca a GARRA, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos...

Que eu não perca a RAZÃO, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas...

Que eu não perca o SENTIMENTO DE JUSTIÇA, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu...

Que eu não perca o meu FORTE ABRAÇO, mesmo sabendo que um dia meus braços estarão fracos...

Que eu não perca a BELEZA E A ALEGRIA DE VER, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...

Que eu não perca o AMOR POR MINHA FAMÍLIA, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia...

Que eu não perca a vontade de DOAR ESTE ENORME AMOR que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado...

Que eu não perca a vontade de SER GRANDE, mesmo sabendo que o mundo é pequeno...
E acima de tudo...

Que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente!

Que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois...

A Vida é construída nos sonhos e concretizada no AMOR!

Francisco Cândido Xavier

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ser Moça Bonita

Ser Moça Bonita
não é viver em um píncaro azulado:
é muito mais!

Ser Moça Bonita
é sorrir bastante dos homens
e rir interminavelmente das mulheres,
rir como se o ridículo,
visível ou invisível,
provocasse uma tosse
de riso irresistível.Ser Moça Bonita
é não usar pintura alguma,
às vezes,
e ficar de cara lambida,
os cabelos desarrumados
como se ventasse forte,
o corpo todo apagado
dentro de um vestido
tão de propósito sem graça,
mas lançando fogo pelos olhos.

Ser Moça Bonita
é lançar fogo pelos olhos.É viver a tarde inteira,
em uma atitude esquemática,
a contemplar o teto,
só para poder contar depois
que ficou a tarde inteira
olhando para cima,
sem pensar em nada.

É passar um dia todo
descalça no apartamento da amiga
comendo comida de lata
e cortar o dedo.

Ser Moça Bonita
é ainda possuir vitrola própria
e perambular pelas ruas do bairro
com um ar sonso-vagaroso,
abraçada a uma porção
de elepês coloridos.


É dizer a palavra feia
precisamente no instante
em que essa palavra
se faz imprescindível
e tão inteligente e natural.

É também falar legal e bárbaro
com um timbre tão por cima
das vãs agitações humanas,
uma inflexão tão certa
de que tudo neste mundo
passa depressa
e não tem a menor importância.Ser Moça Bonita
é poder usar óculos
como se fosse enfeite,
como um adjetivo
para o rosto
e para o espírito.

É esvaziar o sentido das coisas
que transbordam de sentido,
mas é também dar sentido de repente
ao vácuo absoluto.

É aguardar com paciência e frieza
o momento exato
de vingar-se da má amiga.

É ter a bolsa cheia
de pedacinhos de papel,
recados que os anacolutos
tornam misteriosos,
anotações criptográficas sobre
o tributo da natureza feminina,
uma cédula de dois cruzeiros
com uma sentença hermética
escrita a batom,
toda uma biografia esparsa
que pode ser atirada
de súbito ao vento que passa.

Ser Moça Bonita
é a inclinação do momento.É telefonar muito,
estendida no chão.

É querer ser rapaz
de vez em quando
só para vaguear sozinha
de madrugada
pelas ruas da cidade.

Achar muito bonito
um homem muito feio;
achar tão simpática
uma senhora tão antipática.

É fumar quase um maço de cigarros
na sacada do apartamento,
pensando coisas brancas,
pretas, vermelhas, amarelas.Ser Moça Bonita
é comparar o amigo do pai
a um pincel de barba,
e a gente vai ver está certo:
- o amigo do pai
parece um pincel de barba.

É sentir uma vontade doida
de tomar banho de mar de noite
e sem roupa, completamente.

É ficar eufórica
à vista de uma cascata.
Falar inglês sem saber
verbos irregulares.

É ter comprado na feira
um vestidinho gozado
e bacanérrimo.É ainda ser Moça Bonita
chegar em casa
ensopada de chuva,
úmida camélia,
e dizer para a mãe
que veio andando devagar
para molhar-se mais.

É ter saído um dia
com uma rosa vermelha na mão,
e todo mundo pensou com piedade
que ela era uma louca varrida.

É ir sempre ao cinema
mas com um jeito de quem
não espera mais nada desta vida.

É ter uma vez bebido
dois gins,
quatro uísques,
cinco taças de champanha
e uma de cinzano
sem sentir nada,
mas ter outra vez bebido
só um cálice de vinho do Porto
e ter dado um vexame
modelo grande.

É o dom de falar
sobre futebol e política
como se o presente
fosse passado,
e vice-versa.Ser Moça Bonita
é atravessar de ponta a ponta
o salão da festa
com uma indiferença mortal
pelas mulheres
presentes e ausentes.

Ter estudado ballet e desistido,
apesar de tantos telefonemas
de Madame Saint-Quentin.

Ter trazido para casa
um gatinho magro
que miava de fome
e ter aberto uma lata de salmão
para o coitado.

Mas o bichinho comeu o salmão
e morreu.


É ficar pasmada
no escuro da varanda
sem contar para ninguém
a miserável traição.

Amanhecer chorando,
anoitecer dançando.

É manter o ritmo
na melodia dissonante.

Usar o mais caro perfume
de blusa grossa e blue-jeans.

Ter horror de gente morta,
ladrão dentro de casa,
fantasmas e baratas.

Ter compaixão
de um só mendigo
entre todos os outros
mendigos da Terra.

Permanecer apaixonada
a eternidade de um mês
por um violinista estrangeiro
de quinta ordem.

Eventualmente,
ser Moça Bonita
é como se não fosse,
sentindo-se quase a cair do galho,
de tão amadurecida em todo o seu ser.

É fazer marcação cerrada
sobre a presunção
incomensurável dos homens.

Tomar uma pose,
ora de soneto moderno,
ora de minueto,
sem que se dissipe
a unidade essencial.

É policiar parentes, amigos,
mestres e mestras
com um ar songamonga
de quem
nada vê,
nada ouve,
nada fala.
Ser Moça Bonita é adorar.
Adorar o impossível.

Ser Moça Bonita é detestar.
Detestar o possível.

É acordar ao meio-dia
com uma cara horrível,
comer somente e lentamente
uma fruta meio verde,
e ficar de pijama telefonando
até a hora do jantar,
e não jantar,
e ir devorar
um sanduíche americano
na esquina,
tão estranha
é a vida sobre a Terra.



Ser Brotinho Paulo Mendes Campos Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15

AC

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Papai, o que é Páscoa???


-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta, vem cá!

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?

-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais?

-Sacrilégio!!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo?

-Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

-Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?

-Era... era melhor,sim... ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sabado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?

-É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O Judas traiu Jesus no Sábado?

-Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

-Ui...-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

(Luiz Fernando Veríssimo)




sábado, 28 de março de 2009

Jogando conversa fora...

JOGANDO
CONVERSA FORA.


Acho que estou retrocedendo no tempo...rs
Imaginem vocês que ando com uma enorme propensão a admirar bichos de pelúcia!
Agora à pouco, vi um mouse da linha Kids da Clone, um Ursinho, e fiquei apaixonada por ele!!!
Uai! O que será que está acontecendo comigo?
Acho que passei do tempo dessas coisas...
Mas sou assim mesmo...

Às vezes, meu lado criança toma conta de mim e aí, chocolates, sorvetes, jogos, brinquedos, dança e música fazem festa na minha vida...
São momentos raros...

Sempre acompanhados da saudade
do andar de mãos dadas,
do sorrir sem medo,
do sentir-se feliz
e poder expor ao mundo...



Do beijo roubado,
do beijo explícito,
sem preocupar-se
com "o que os outros vão pensar"...


Essas coisas de adolescente
que ficam aqui,
guardadas
e a gente só não vive
porque fica medroso,
criterioso!


E quando percebe,
está velho e cansado demais
para fazer tudo isso...


E o que nos resta
é a televisão
na tarde de domingo
e nada além do que
dormir...
Alguns inventam um cachorro,
um jardim,
uma casa
ou os netos
para tomar conta,
acabando por se esquecer
que precisam inventar
coisas para si mesmos,
coisas que revertam
em sorrisos,
abraços,
companhia...


Porque o cachorro morre,
o jardim seca,
os netos crescem,
a casa fica para alguém...


Mas a presença amiga
e companheira de alguém
que ama você
e que é amado por você
é eterna,
mesmo depois
da partida.


Insubstituível, não somos...


Mas eu confesso que
não quero ser substituída!rs...


Quero ser,
estar,
ficar,
permanecer...
Quem sabe permanecer
como sempre fui?


Meio maluquinha,
meio criança,
meio sapeca,
mas
feliz...


Em algum lugar,
escondida,
está a chave que me trancou
atrás dos muros
do medo,
da indecisão,
do comodismo.


Com certeza
ela está nas mãos de alguém...


Talvez,
bem próxima de mim...
E quando eu conseguir encontrar
o portador dela,
vou gritar bem alto
pela minha liberdade,
pelo direito de ser
eu mesma...


Não vou cobrar
o que me tomaram...


Vou reconstruir
os meus sonhos,
os mesmos que embalaram
as minhas noites,
os meus dias
e as minhas fantasias
de felicidade.


E quando essa porta se abrir...


Ah, quando essa porta se abrir,
vou respirar fundo
e abraçar
o Sol.


Se haverá alguém
me esperando lá fora,
eu não sei...


Mas meu pensamento,
com certeza,
irá procurar
por um nome
em
especial...



O teu!


.............Débora Bellentani


by AC

quarta-feira, 25 de março de 2009

As mulheres são verdes


As Mulheres são Verdes

Conversando com um velho homem,
um jovem desabafou:
" Há tanto tempo venho querendo conhecer uma garota e hoje,
conseguindo falar-lhe por telefone,
fiquei decepcionado "
" Mas por que ? ", indagou o velho homem.
" Eu lhe perguntei timidamente

como ela era e ela - rindo! - respondeu: sou verde.
" E por que a resposta o chocou ? "
" Ora, amigo, ela estava debochando de mim !
"Ouvindo isso, o velho homem pôs-se a falar:
" Meu jovem,
você não entendeu que ela estava
se comparando a uma árvore "
" Árvore ? Como assim ?!? "
" Menino, as mulheres são como as árvores:
Elas fincam raízes no solo dos nossos corações;
Têm paciência e capricho com o próprio crescimento;
Seus braços são poderosos e,
ao abraçá-las, nossos espíritos recebem renovadas energias;
Elas amam e cuidam dos seus frutos,
mesmo sabendo que um dia
o mundo os levará para longe delas.
Outras - aquelas que não dão frutos - oferecem sua sombra
àqueles que necessitam de descanso;
Quando açoitadas por fortes ventos da vida,
elas emanam o perfume da força e da fé,
acalmando-nos, por mais assustadora que seja a noite;
Sua seiva são as lágrimas de dor
ou de alegria quando em presença do machado ofensor
ou do regador daqueles que as amam;
Seus corações vão alto o suficiente para escutarem
mais de perto os recados do céu;
Elas reverdecem as florestas dos homens,
as ruas das cidades,
as avenidas,
os acostamentos de estradas
e as beiras de rios;
Elas entendem o canto dos passarinhos e,
mais do que ninguém,
elas valorizam e protegem seus ninhos;
Suportam melhor a solidão
e as vicissitudes que a Vida às vezes nos impõe;
No mundo, elas nascem em maior número
para que o verde da esperança jamais empalideça.
Meu menino, todas as mulheres são árvores,
todas as mulheres são verdes.
"Ao final desse relato, refletiu o rapaz:
" Eu tenho um triste jardim no peito:
Nele está faltando uma árvore
" e correu para o telefone mais próximo ...

~~~~~~~~~~~~~~

"Todo homem tem um jardim no peito,
Feliz aquele que ali cultiva uma árvore"
By AC

Falo a língua dos loucos

Quem é que nunca teve um Marcelo, um Felipe, um Ricardo, um Júlio ou um Mario na vida?

Tudo bem pode ser uma Juliana, uma Natália, uma Ana, uma Patrícia ou uma Aline...

Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa!
Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo
é o mesmo que não ter nenhuma,
e ter apenas uma, é o mesmo que
possuir 10 ao mesmo tempo!
A "fila" anda,
a coleção de "figurinhas" cresce,
a conta de telefone é sempre altíssima.
Mas e ai?
O que isso te acrescenta?

Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha:

-Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa
por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala
não despenca logo na sua vida???

Se o tal "amor" é impontual
e imprevisível que se dane!
Não adianta:
As pessoas são impacientes!
São e sempre vão ser!
Tem gente que diz que não é...
"Eu não sou ansioso,
as coisas acontecem quando tem que acontecer"

Mentira!

Por dentro todo ser humano é igual:
impaciente, sonhador, iludido...
Jura de pé junto que não,
mas vive sempre em busca
da famosa cara metade!
Pode dar o nome que quiser:
Amor,
alma gêmea,
par perfeito,
a outra metade da laranja...
No fim dá tudo no mesmo.
Pode soar brega, cafona...
Mas é a realidade.
Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo.

Acredito que o status de cafona
surgiu porque a grande maioria das pessoas
nunca teve a oportunidade
de viver um grande amor.
Poucas pessoas experimentaram nesta vida
a sensação de sonhar acordada,
de dormir do lado do telefone,
de ter os olhos brilhando,
de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...

Não lembro se foi o "Wando"
ou se foi o "Reginaldo Rossi" que disse em uma entrevista
que se a Marisa Monte não tivesse optado
pelo "Amor I love you"
e que se o Caetano não tivesse dito
"Tô me sentindo muito sozinho..."
eles não venderiam mais nenhum disco.
Não adianta,
o público gosta e vibra com o brega".
Não adianta tapar o sol com a peneira.

Por mais que você não admita:
- Você ficou triste
porque o Leonardo di Caprio morreu em Titanic "
e ficou feliz porque a Julia Roberts
e o Richard Gere acabaram juntos em "Uma Linda Mulher".

- Existe pelo menos uma música sertaneja ou um "pagodinho"
que te deixe com dor de cotovelo;

- Quando você está solteira e vê um casal aos beijos e abraços
no meio da rua
você sente a maior inveja;

- Você já se pegou
escrevendo o seu nome
e o da pessoa pelo qual você está apaixonada
no espelho embaçado do banheiro,
ou num pedacinho de papel;

- Você já se viu cantando
o mantra "Toca telefone toca"
em alguma das sextas-feiras de sua vida,
ou qualquer outro dia que seja;

- Você já enfiou os pés pelas mãos
alguma vez na vida
e se atirou de cabeça numa "relação"
sem nem perceber que você mal conhecia
a outra pessoa
e que com este seu jeito de agir
ela te acharia uma tremenda louca;

- Você, assim como nos contos de fada,
sonha em escutar um dia
o tal "E foram felizes para sempre..."

Bem, preciso continuar? Ok, acho que não...

Negue o quanto quiser,
mas sei que já passou por isso,
e se não passou,
não sabe o quanto está perdendo...

"O problema de resistir a uma tentação
é que você pode não ter uma segunda chance."

"Falo a língua dos loucos,
porque não conheço a mórbida coerência dos lúcidos"


terça-feira, 24 de março de 2009

Uma linda estória de amor...














John Blanchard levantou do banco,
endireitando a jaqueta de seu uniforme
e observou as pessoas fazendo seu caminho
através da Grand Central Station.

Ele procurou pela garota
cujo coração ele conhecia
mas o rosto não;
a garota com a rosa.

Seu interesse por ela
havia começado trinta meses antes,
numa livraria da Flórida.

Tirando um livro da prateleira,
ele se pegou intrigado,
não com as palavras do livro,
mas com as notas feitas á lápis
nas margens.


A escrita suave
refletia uma alma profunda
e uma mente cheia de brilho.


Na frente do livro,
ele descobriu o nome
do primeiro proprietário:


Srta. Hollis Maynell.


Com tempo e esforço
ele localizou seu endereço.


Ela vivia em New York City.


Ele escreveu a ela uma carta,
apresentando-se e convidando-a
a corresponder-se com ele.


Na semana seguinte
ele embarcou num navio para servir na II Guerra Mundial.
Durante o ano seguinte,
mês a mês eles desenvolveram
o conhecimento um do outro
através de suas cartas.

Cada carta era uma semente
caindo num coração fértil.

Um romance de companheirismo.
Blanchard pediu uma fotografia,
mas ela recusou.

Ela queria que ele realmente
se importasse com ela,
não importando como ela era,
ou sua aparência.

Quando finalmente chegou o dia
em que ele retornou da Europa,
eles marcaram seu primeiro encontro

- 7:00 da noite na Grand Central Station em New York.

"Você me reconhecerá"
ela escreveu,
pela rosa vermelha
que estarei usando na lapela",



Então, ás 7:00 ele estava na estação,
procurando por uma garota
cujo coração ele amava,
mas cuja face
ele nunca havia visto.

Vou deixar o Sr.Blanchard
dizer-lhe o que aconteceu:

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

"Uma jovem aproximou-se de mim.

Sua figura era alta e magra.

Seus cabelos loiros
caíam delicadamente
sobre os seus ombros,
seus olhos eram verdes como água.

Sua boca era pequena
e seus lábios carnudos,
e seu queixo tinha uma firmeza delicada.

Seu traje verde pálido
era como se a primavera tivesse chegado.
Eu me dirigi a ela,
inteiramente esquecido
de perceber que ela
não esta usando uma rosa.

Como eu me movi em sua direção,
um pequeno, provocativo sorriso,
curvou seus lábios.

"Indo para o mesmo lugar que eu marinheiro?"
-ela murmurou.

Quase incontrolavelmente
dei um passo pra junto dela,
e então eu vi Hollis Maynell.


Ela estava parada
quase que exatamente
atrás da garota.


Uma mulher já passada dos 50 anos,
ela tinha seus cabelos grisalhos
enrolados num coque
sob um chapéu gasto.

Ela era mais que gorducha,
seus pés compactos
confiavam em sapatos
de saltos baixos.


A garota de verde
seguiu seu caminho
rapidamente.


Eu me senti como se tivesse
sido dividido em dois,
tão forte era meu desejo de segui-la
e tão profundo era o desejo
por aquela mulher
cujo espirito
verdadeiramente me acompanhara
e me sustentara através
de todos as minhas atribulações.

E então ela parou.

Sua face pálida e gorducha
era delicada e sensível,
seus olhos cinzas
tinham um calor e simpatia
cintilantes.

Eu não hesitei.

Meus dedos seguraram
a pequena e gasta capa
de couro azul do livro
que a identificou para mim.

Isto podia não ser amor,
mas poderia ser algo precioso,
talvez mais que amor,
uma amizade pela qual
eu seria para sempre
cheio de gratidão.

Eu inclinei meus ombros,
cumprimentei-a
mostrando o livro para ela,
ainda pensando,
enquanto falava,
na amargura do meu desapontamento.

"Sou o Tenente John Blanchard,
e você deve ser a Srta. Maynell.

Estou muito feliz que tenha
podido me encontrar.

Posso lhe oferecer um jantar?"
O rosto da mulher
abriu-se num tolerante sorriso.

"Eu não sei o que está acontecendo",
ela respondeu,
"Aquela jovem de vestido verde
que acabou de passar
me pediu para colocar
esta rosa no casaco.

E ela disse que
se você me convidasse pra jantar,
eu deveria lhe dizer
que ela está esperando por você
no restaurante de esquina.

E ela disse que isso
era um tipo de "TESTE"!
Não pareceu difícil, pra mim,
compreender e admirar
a sabedoria da Srta. Maynell.
Porque a verdadeira natureza
do coração de uma pessoa
é vista na maneira como
ela responde
ao que não é atraente.
by AC

domingo, 8 de março de 2009

A mulher de "Nova"


A MULHER DE NOVA

Estava eu na ante-sala do consultório,
quando peguei uma revista, a NOVA, e comecei a folhear.
Logo entrei em transe ao acompanhar a vida da MULHER DE "NOVA".

Ela tem atitude, seus cabelos têm brilho natural e ondulam ao vento.

Ela não caminha, desliza.

Tem idéias e opiniões contemporâneas.

Conhece o prazer de dirigir (inclusive sua própria vida).

É independente, mas quando quer, tem “alguém” com quem compartilhar idéias e sentimentos – "alguém" que também tem atitude, idéias próprias e opinião.

Ela é batalhadora, linda e inteligente – tudo ao mesmo tempo – AGORA!

Seu corpo não pede – exige.

Seus dias se passam em sessões de massagem, hidroginástica, dentista, psicólogo (ou tarólogo).

E - por que não - no escritório, dando ordens, fazendo ou aprovando projetos.

Tem profunda preocupação social: não perde uma exposição do Sebastião Salgado.

Diverte-se sem culpa, suas calorias são controladas por nutricionista.

Faz viagens inesperadas – quando se pensa que está em New York, acabou de embarcar para umas férias no Taití.

Ano passado, esteve no Tibete (meditando)

já este ano quer conhecer a Grécia.

Suas mãos são sedosas e os longos dedos terminam em unhas de porcelana, prontas para carícias felinas.

Está sempre a fim de gente nova, novos ambientes, e uma incrível vontade de mudar, principalmente os móveis, o que faz anualmente.

Seus saltos parecem providos de amortecedores.

É com eles que sai à noite, principalmente ao teatro ou alguma balada hot.

Seu papo é brilhante – e sempre alvo das atenções.

Usa decotes vertiginosos,
tipo Nicole Kidman.

Atualmente está indecisa entre o atual e um ex.

Nunca deixa que problemas domésticos alterem seus planos.

Ao menor sinal de estresse, toma longos banhos de ofurô com pétalas de rosa (e velas – não se sabe bem por que).

Impossível acompanhar seu pique.

Seu celular tem câmara digital pra transmitir aos amigos “todos os lances” no fotoblog.

Sente-se flutuar quando ganha jóias, coisa que lhe acontece com freqüência.

Mas não perde a cabeça e tem sempre os pés no chão.

As boutiques exclusivas a recebem de braços abertos.

Faz o gênero básico, mas com um toque elegante e pessoal.

Não repete o mesmo vestido, ou guarda-o para outra estação,
como Costanza Pascolato.

Vem posando para um pintor naíf, que já ultrapassou a fase azul.

Sua pele saudável e lisa não depende da idade, mas de sua inteligência e um pouco de botox, mas não confessa isso nem sob tortura.

Malha numa academia três vezes na semana, e o umbigo é uma pequena taça adornada com um piercing de brilhante.

É sensível, provocante e bem relacionada.

Levanta sempre de bom astral, graças às noites bem dormidas com ½ dormonid, e sai de casa só depois de um longo breakfast de sucos e frutas, e muitos, muitos telefonemas.

Acha que dinheiro não traz felicidade, mas pode proporcionar bons momentos de prazer. Quando entediada, “discute a relação” numa boa.

Ou vai ao cirurgião plástico.

Ou nada em sua piscina de azul cristalino.

Seu dia tem mais de 24 horas, tantas e tamanhas são suas atividades.

Para compensar, tem reserva num hotelzinho de charme na Provence, passando na volta em Paris, com esticada ao Buddha Bar, é claro.

Nunca aparenta ciúme – é self confident.

Quando quer aperfeiçoar o inglês, faz uma semana de "imersão" na região serrana.

É magra por opção, com leves pitadas de silicone.

O corpo está sempre pronto para o bikini.

Ousada, encara com firmeza os membros do conselho da empresa, e, ao final das reuniões, dá seu voto de Minerva.

Seus palpites são originais e aprovados pela maioria.

Aceita o sucesso com tranqüilidade e quando volta do exterior recebe os amigos com bufê do Charlô ou da Mena Barreto.

Tem fotografado com Mário Testino, mas gostaria de ter posado para Andy Warhol ou Dick Avedon.

Sempre deixa seu amor à vontade, não pede explicações para que não se sinta ameaçado.

Tem o bumbum durinho, as pernas são verdadeiras colunatas; os pés, fetiches irresistíveis, montados em sandálias Prada.

Sabe pegar leve, sorri com dentes perfeitos, seu perfume é sutil mas duradouro.

É curiosa na dose certa.

Atenta aos detalhes, não faz perguntas indiscretas, embora sempre saiba das últimas.

Sua fantasia sexual é ter 9 e 1/2 semanas de amor com ... (não revela), lambuzada de chocolate e merengue, numa pousada de sonho que pertence ao Paulo Zulu, com acesso a praias agrestes e exclusivas.

Enfim, é dinamite pura, ainda mais com essas bolinhas tailandesas que comprou num sex shop; também é mestre nas artes do pompoar.


~~~~~~~ Neste ponto, vi-me sentindo a pior das criaturas... Foi quando a atendente chamou e saí do transe, aliviada. Definitivamente, estou fora de mercado...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Memórias

“(...)A memória pertence ao passado.
É um registro.
Sempre que a evocamos se faz presente,
mas permanece intocada,
como um sonho.
A percepção do real tem a concreteza,
a realidade física, tangível.
Mas como os instantes se sucedem feito os tique-taques do relógio,
eles vão se transformando em passado,
em memória,
e isso é tão inaferrável como um instante nos confins do tempo.
Escrever pode ser,
ou é,
a necessidade de tocar a realidade que é a única
segurança de nosso estar no mundo – o existir.
É difícil,
se não impossível,
precisar quando as coisas
começam dentro de nós...”.

(CAMARGO, Iberê – Gaveta dos Guardados).

Quase

QUASE...
Ainda pior que a convicção do não,
e a incerteza do talvez,
é a desilusão de um quase.



É o quase que me incomoda,
que me entristece,
que me mata trazendo tudo
que poderia ter sido
e não foi.



Quem quase ganhou
ainda joga,
quem quase passou
ainda estuda,
quem quase morreu
está vivo,
quem quase amou
não amou.



Basta pensar nas oportunidades
que escaparam
pelos dedos,
nas chances
que se perdem por medo,
nas idéias
que nunca sairão do papel
por essa maldita mania
de viver
no outono.



Pergunto-me, às vezes,
o que nos leva a escolher
uma vida morna;
ou melhor não me pergunto,
contesto.



A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância
e frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "Bom dia",
quase que sussurrados...


Sobra covardia e falta coragem
até pra ser feliz.



A paixão queima,
o amor enlouquece,
o desejo trai.



Talvez esses fossem bons motivos
para decidir entre
a alegria
e a dor,
sentir o nada,
mas não são...


Se a virtude estivesse mesmo
no meio termo,
o mar não teria ondas,
os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.



O nada não ilumina,
não inspira,
não aflige
nem acalma,
apenas amplia o vazio
que cada um traz
dentro de si...


Não é que fé mova montanhas,
nem que todas as estrelas
estejam ao alcance,
para as coisas
que não podem ser mudadas,
resta-nos somente
a paciência...


Porém,
preferir a derrota prévia
à dúvida da vitória
é desperdiçar a oportunidade
de merecer.


Pros erros
há perdão;
pros fracassos,
chance;
pros amores impossíveis,
tempo.


De nada adianta cercar
um coração vazio
ou economizar alma.


Um romance
cujo fim é instantâneo
ou indolor
não é romance.




Não deixe que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo
impeça de tentar.



Desconfie do destino
e acredite em você.



Gaste mais horas realizando
que sonhando,
fazendo
que planejando,
vivendo
que esperando
porque,
embora quem quase morre
esteja vivo,

quem quase vive

já morreu...


(Luiz Fernando Veríssimo)

Amo-te

















"Algum dia eu haveria de entrar
na normalidade
dos que te amam.
Amo-te.

E dói escrevê-lo
(que é pior, meu amor, do que dizê-lo).
Amo-te,
absoluta, impossível e fatalmente.

E ouço, adolescente, uma música adolescente,
para me lembrar de ti,
porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te.

E ouço música porque ouvimos música quando amamos,
e tudo, no amor, é música,
acústica da alma que se quer ser devorada, e,
neste caso, dor
(tão deliciosamente insuportável)
de amar sem sequência
nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objeto
que desgraçadamente amamos.


Isto é uma carta de amor,
e é possivelmente ridícula
(prova maior de que é, realmente uma carta de amor),
ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive
a coragem de as enviar. Não percebes porque é que não te falo?

Ainda não percebes que,
na personagem que de mim eu enceno,
não cabe a ameaça de uma derrota,
a antecipação do desencanto,
a sombra de um vexame?


Não te falo,
para não saber que o que eu te digo
é apenas a forma contida de
te dizer outra coisa,
mas que essa coisa não é do teu mundo,
nem do mundo que eu construí,
nem do precário mundo que a
nossa fragilíssima ternura mútua arquitetou.


E tudo isto é literário,
eu sei,
mas "que queres" - a literatura é o melhor de mim
e é o melhor de mim que vive
dentro da minha cabeça
quando estou contigo. .... E é verdade,
é cada vez mais verdade,
que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida,
é em ti que penso.


E tenho medo, como um animal que instintivamente
foge do que sabe não poder atingir. Eu penso em ti,
ainda mais do que te digo,
e tu estás em tudo,
mesmo quando não te penso,
tu és a grande razão,
o horizonte sem nome que constantemente se
desenha na minha
imaginação de mim."

[António Mega Ferreira, in "Amor"]