O amor essencialmente é união,
e naturalmente a busca:
para ali pesa,
para ali caminha,
e só ali pára...
Tudo são palavras de Platão,
e de Santo Agostinho.
Pois se a natureza do amor é unir,
como pode ser efeito do amor o apartar?
Assim é,
quando o amornão é extremado e excessivo.
As causas excessivamente intensas
produzem efeitos contrários.
A dor faz gritar;
mas se é excessiva,
faz emudecer:
a luz faz ver;
mas se é excessiva,cega:
a alegria alenta e vivifica;
mas se é excessiva,mata.
Assim o amor:
naturalmente une;
mas se é excessivo,divide:
Fortis est ut mors dilectio:
o amor, diz Salomão,
é como a morte.
Como a morte, rei sábio?
Como a vida, dissera eu.
O amor é união de almas;
a morte é separação da alma:
pois se o efeito do amor é unir,
e o efeito da morte é separar,
como pode ser o amor
semelhante à morte?
O mesmo Salomão se explicou.
Não fala Salomão de qualquer amor,
senão do amor forte?
Fortis est ut mors dilectio:
e o amor forte,
o amor intenso,
o amor excessivo,
produz efeitos contrários.
É união,
e produz apartamentos.
Sabe-se o amor atar,
e sabe-se desatar
como Sansão:
afetuoso, deixa-se atar;
forte, rompe as ataduras.
O amor sempre é amoroso;
mas umas vezes
é amoroso e unitivo,
outras vezes
amoroso e forte.
Enquanto amoroso e unitivo,
ajunta os extremos mais distantes:
enquanto amoroso e forte,
divide os extremos mais unidos.
Começando pelo amor - ANTONIO VIEIRA. Sermão do Mandato. Brasília: Editora Universidade de Brasília: São Paulo):
AC


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