quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Definições

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando sempre faltam 5 minutos para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada em especial.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro...

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.

Não.

Amor é um exagero...
também não.

É um "desadoro"...

Uma batelada?
Um exame,
um dilúvio,
um mundaréu,
uma insanidade,
um destempero,
um despropósito,
um descontrole,
uma necessidade,
um desapego?

Talvez porque não tivesse sentido,
talvez porque não houvesse explicação,
esse negócio de amor não sei explicar...


Adriana Falcão

sábado, 3 de janeiro de 2009

Evidências

Evidências




Eu sei, mas não devia...

Eu sei que a gente
se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma
a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista
que não seja as janelas ao redor. E porque não tem vista,
logo se acostuma
a não olhar para fora.
E porque não olha para fora
logo se acostuma
a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas
logo se acostuma
acender mais cedo a luz.

E a medida que se acostuma,
esquece o sol,
esquece o ar,
esquece a amplidão. A gente se acostuma
a acordar de manhã
sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo
porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus
porque não pode
perder tempo da viagem.
A comer sanduíche
porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho
porque já é noite.
A cochilar no ônibus
porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado
sem ter vivido o dia. A gente se acostuma
a abrir o jornal
e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra,
aceita os mortos
e que haja número
para os mortos.
E aceitando os números
aceita não acreditar
nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra,
dos números,
da longa duração.
A gente se acostuma
a esperar o dia inteiro
e ouvir no telefone:
hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas
sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado
quando precisava tanto
ser visto.
A gente se acostuma
a pagar por tudo
o que deseja
e o de que necessita.

A lutar para ganhar
o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos
do que precisa.
E a fazer filas
para pagar.
E a pagar mais
do que as coisas valem.
E a saber que cada vez
pagará mais.
E a procurar mais trabalho,
para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar
nas filas que se cobra.
A gente se acostuma
a andar na rua
e a ver cartazes.
A abrir as revistas
e a ver anúncios.
A ligar a televisão
e a ver comerciais.
A ir ao cinema
e engolir publicidade.
A ser instigado,
conduzido,
desnorteado,
lançado na infindável
catarata dos produtos.
A gente se acostuma
à poluição. As salas fechadas
de ar condicionado
e cheiro de cigarro.
A luz artificial
de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam
na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação
da água do mar.
A lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir o passarinho,
a não ter galo de madrugada,
a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma
a coisas demais
para não sofrer.
Em doses pequenas,
tentando não perceber,
vai se afastando
uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio
a gente senta na primeira fila
e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada
a gente só molha os pés
e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro,
a gente se consola
pensando no fim de semana.

E se no fim de semana
não há muito o que fazer
a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito
porque tem sempre
sono atrasado.

A gente se acostuma
para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma
para evitar feridas,
sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta,
para poupar o peito.

A gente se acostuma
para poupar a vida
que aos poucos se gasta

e, que gasta,
de tanto acostumar,

se perde de si mesma.

Marina Colassanti