domingo, 18 de outubro de 2009

Uma arte

A arte de perder
não tarda aprender;

tantas coisas parecem feitas
com o molde da perda
que o perdê-las
não traz desastre.

Perca algo a cada dia.
Aceita o susto
de perder chaves,
e a hora passada embalde.

A arte de perder
não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido
mil coisas mais:
lugares,
nomes,
onde pensaste
de férias ir.

Nenhuma perda
trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe.

A última,
ou a penúltima,
de minhas casas queridas
foi-se.

Não tarda aprender,
a arte de perder.

Perdi duas cidades,
eram deliciosas.

E,
pior,
alguns reinos que tive,
dois rios, um continente.

Sinto sua falta,
nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti
(a voz que ria, um ente amado),
mentir não posso.

É evidente:
a arte de perder muito
não tarda aprender,
embora a perda
- escreva tudo!
- lembre desastre.


Uma arte - Elisabeth Bishop
Por A/C

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