“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele
para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
o mesmo que criar peixe no bolso.
O menino era ligado em despropósitos
quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e há até os infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Descobriu que escrever era o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo.
Ao mesmo tempo.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher vazio com suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.”
( Manoel de Barros)
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
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