domingo, 1 de março de 2009

Do coração de uma mulher

A bem da verdade,
não sou
essa mulher fatal
que você pensa
que eu sou.

Aquelas histórias
de sedução
foram todas inventadas
e esse ar superior,
de quem sabe lidar
com a vida,
é apenas autodefesa.

Aquelas frases
filosóficas,
foram só
pra te impressionar,
pra te passar
essa ilusão
de intelectual...



Na verdade
eu ainda nem sei
se acredito nos valores
que me ensinaram,
quanto mais
em frases feitas
e opiniões formadas!
Senta aí, vai!



Deixa eu tirar
os sapatos,
desmanchar
o penteado,
retirar
a maquiagem...


quero te mostrar
que assim de perto

não sou tão bonita
quanto pareço,

por isso uso
todos esses artifícios.



É que no fundo
tenho um medo
terrível
de que você
me ache feia,
de que você
encontre em mim
uma série
de imperfeições.
Sabe,

não quero
mais usar
essa máscara
de mulher inatingível,
de mulher forte
com punhos de aço...



No íntimo me sinto
uma pequena ave
indefesa,
leve demais
para enfrentar
o vento,

e, deseja ficar
no aconchego
do ninho
e ser mimada

até adormecer.

Olha pra mim,
às vezes
minha intimidade
não tem brilho algum
e você terá
que me amar muito
para suportar
essa minha impotência.

Deixa eu
tirar o casaco,
tirar o cansaço...

essa jornada dupla
me deixa tão carente...



A convicção
de independência afetiva?



É tudo balela!



Eu queria mesmo
era dividir
a cama,
a mesa,
o banho...

Queria dividir
os sentimentos,
os sonhos,
as ilusões...

um pedaço de torta,
uma xícara de café,


algum segredo...

Ah,
eu tenho
andado por aí,
tenho sido
tantas mulheres
que não sou!



Quantas vezes
me inventei
e até me convenci
da minha identidade.
Administrei
minha liberdade.



Tomei aviões,
tomei whisky...

troquei a lâmpada,
abri sozinha
o zíper do vestido...

decidi o meu destino
com tanta segurança!



Mas não previ
que na linha
da minha vida
estivesse demarcada
uma paixão inesperada.


Agora,
cá estou eu,
trinta e poucos anos
e toda atrapalhada,
tentando

um cruzar de pernas diferente,

um olhar mais grave,

um molhar de lábios sensual...


mas não sei direito
o que fazer
para agradar.

Confesso que isso
me cansa um pouco.


Queria mesmo
era falar
de todos
os meus medos,

"dos seus medos?"

- você diria, como se eu nunca
tivesse temido nada.

Queria te falar
das minhas marcas
de infância,

dos animais que tive,

do meu primeiro
dia de aula...


queria falar

dessas coisas
mais elementares,


e te levar na casa
da minha mãe,


te mostrar
meu álbum de retrato

(eu, me equilibrando
nos primeiros passos),


ah,

queria te mostrar
minha primeira bicicleta,

com truques.



Ela ainda existe!



Queria te mostrar
as árvores que eu plantei
(como elas cresceram!)
e cansei de subir e cair
até fazer estas marcas
que trago hoje nos joelhos

e todas essas coisas
que são
tão importantes
pra mim
e tão insignificantes
aos outros.

Ah,
você queria falar
alguma coisa?


Está bem!


Antes,

só mais uma coisinha:


estou morrendo
de medo
que você saia
desta cena
antes de mim,


que você saia
à francesa
desta história,


e eu tenha
que recolocar
minha máscara


e me reinventar,
outra vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário