quinta-feira, 5 de março de 2009

Derrière

Tinha, como direi, eu,
que sou uma senhora a seu modo
pacata e até pudica, uma, ou melhor,
um derrière esplendido

Não é preciso ser homem
pra essas avaliações.


Firme em definidos
e perfeitos contornos,
rebelde ao disfarce
das saias e anáguas
daquele tempo,
inscrevia-se na cara
de sua dona, que,
movendo os olhos
como as ancas,
subia a rua
em falsa pudicícia,
apregoando-se:
tenho!


Os homens ficavam loucos.


Eu era mocinha boba e escutei
no armazém do Calixto
ele dizer pro Teodoro,
meu futuro marido,
naquele tempo preocupado em fazer
bodoques de goma:
- Eh, ferro!


O Vicente não vai dar
conta daquela ali, não.

É preciso muita saúde.

Calixto falava com o Teodoro
do que eu suspeitava serem
os tesouros da Oldalisa
e ela nem aí, toda toda,
sobe e desce rua.


Exatamente o que era
me escapava,
só podia ser coisa
de homem e mulher.

Felicitei-me por estar viva
e participar de segredos
tão excitantes.


O Vicente era muito magrinho,
não jogava bola,
não nadava,
"não salientava em nada",
o Vicente
Cisquim.


Pois foi dele que a Raimunda
— como o Calixto chamou ela naquele dia
— gostou.

Casaram e tiveram pencas de filhos.


O Calixto ficou chupando o dedo.


Ser bonitão e dono de armazém
não contou ponto pra ele.


Pois é, falou o Teodoro, hoje,
assim que botou o pé em casa:

O que é a tecnologia, hein?
Tecnologia?
É o avanço da medicina.


Teodoro falava era do avanço do tempo.

Tou aqui matutando, disse ele,
porque a Oldalisa escolheu o Vicente,
não tem base.

Tô vendo aquela dona
pegando as compras
no caixa e...

Plim!


Era ela, a velha senhora.

A Oldalisa do Vicente?

É. O Vicente estava junto?

Não.


Estava com duas alianças e um menino,
neto dela com certeza.

Será que o Vicente
morreu da praga do Calixto?

Acho que não, porque eu procurei
o traseiro da Oldalisa e nada da olda,
só mesmo a lisa, magra e murcha.


Ter encontrado a Oldalisa expropriada
de seu dote mais tentador
deixou Teodoro bem filosofante
sobre as agruras do corpo.


Teria ele também sido
um apaixonado da Oldalisa
e eu corrido sérios riscos?


Porque amor não olha idade,
não é mesmo?


Agora, daquela do escritório
eu tive, medo
não, por causa
de meus outros poderes,
tive inveja.

A uma cintura de vespa
seguia-se,
instruída e fatal,
o que a Oldalisa
trazia com inocência.


Batia à máquina,
agarradinha no Teodoro,
de saia justa
e batom cor de sangue.

O apelido dela na firma
era Corrosiva,
e foi Teodoro quem pôs.

Se chamava Rosiva,
a perigosa.


Imagina o risco que eu corri


O Desbunde ~ Adélia Prado

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